Dor no ombro que desce pelo braço gera muito exame repetido e tratamento no lugar errado. Ombro e pescoço dividem território: a dor pode nascer em um e ser sentida no outro, e o que separa os dois aparece em detalhes do exame, não no laudo da ressonância.
Por que ombro e pescoço se confundem
Os nervos que comandam o braço saem da coluna cervical, e por isso o Manual MSD orienta que o pescoço seja sempre examinado como parte da avaliação do ombro: a dor pode ser referida ao ombro pela coluna cervical, em especial na radiculopatia de C5.
O caminho inverso também existe. Uma revisão de 2016 no Current Reviews in Musculoskeletal Medicine registra que a dor na cintura escapular é sintoma de apresentação frequente da radiculopatia cervical. Articulação acromioclavicular, tendão do bíceps e escápula também podem ser a fonte.
O que aponta para o ombro
Quando o problema está no próprio ombro, a dor costuma aparecer ao mover o braço acima da cabeça e é descrita como um incômodo persistente e mal localizado. O exame procura um padrão: a dor piora entre 60 e 120 graus de abdução, o chamado arco doloroso, e fica mínima ou ausente fora dessa faixa.
Comparar movimentos rende. Na tendinopatia do manguito rotador, a abdução ativa entre 40 e 120 graus dói, a passiva dói menos e a abdução contra resistência pode doer mais. Havendo ruptura completa, o quadro vira dor aguda com fraqueza, mais evidente na rotação externa quando a ruptura é maior.
O que aponta para o pescoço
Quando a origem é cervical, a dor em geral é de um lado só e desce pelo braço seguindo o trajeto de um nervo, com perda de sensibilidade nesse trajeto ou fraqueza no grupo muscular correspondente.
O movimento do pescoço entra na conta: estender e rodar a cabeça para o lado sintomático tende a reproduzir a dor, base do teste de Spurling. Vale registrar o limite dele. No maior estudo reunido naquela revisão, a sensibilidade foi de 30% e a especificidade, de 94%: positivo pesa bastante, negativo não descarta. A ausência de dor no braço também não descarta compressão de raiz nervosa.
Formigamento e perda de força
Formigamento, dormência e queda de força não são uma versão mais intensa da dor de tendão, são outra informação: apontam para envolvimento de raiz nervosa.
Alguns achados pedem avaliação sem esperar fila: déficit neurológico que progride e sinais de comprometimento da medula, como alteração da marcha, piora da coordenação fina das mãos e reflexos exaltados. A revisão de 2016 lista esses sinais entre os que antecipam a discussão cirúrgica.
Quando não é nem ombro nem pescoço
Essa é a dúvida que mais chega por mensagem, quase sempre com a palavra infarto no meio. Pela anatomia, uma dor de origem torácica pode ser sentida em qualquer ponto entre o umbigo e a orelha, incluindo os braços, porque as fibras nervosas se sobrepõem na entrada da medula.
O que separa as duas situações não é o lado nem o ponto exato, é o conjunto. Dor que aparece de forma consistente com esforço físico ou emocional, junto de falta de ar, suor frio, náusea ou desmaio, é cenário de emergência. Dois detalhes do Manual MSD ajudam: dor que já dura semanas não é a apresentação de um quadro que ameaça a vida de imediato, e reproduzir a dor apertando a região não garante origem na parede do tórax.
O que a imagem não resolve
Na lesão do manguito rotador, o diagnóstico se apoia principalmente em história e exame físico, e a ressonância entra quando um ciclo curto de tratamento conservador não resolveu. Os números explicam por quê.
Uma revisão sistemática de 2014, com 6.112 ombros, encontrou alterações do manguito em 9,7% das pessoas até 20 anos e em 62% das com 80 anos ou mais, com aumento parecido havendo ou não sintoma. Os autores concluem que essa degeneração pode ser vista como aspecto comum do envelhecimento, o que dificulta dizer quando o achado é a causa da dor.
Na cervical o retrato se repete: entre 1.211 voluntários sem sintomas, 87,6% tinham abaulamento discal, incluindo 73,3% dos homens na faixa dos 20 anos.
O que o tempo costuma fazer
Aqui a evidência é mais frágil do que o discurso em volta sugere. Para a radiculopatia cervical, aquela revisão de 2016 registra que não há estudos de boa qualidade sobre a história natural; os dados vêm de séries antigas, e em um acompanhamento populacional cerca de 90% das pessoas estavam sem sintoma ou com sintoma leve ao final. A mesma revisão afirma que há pouca evidência de que os tratamentos habituais alterem de forma substancial esse curso.
No ombro, uma revisão Cochrane de 2016 sobre terapia manual e exercício achou 60 ensaios, mas só um de boa qualidade contra placebo, sem diferença clinicamente importante em nenhum desfecho. Isso não quer dizer que nada ajude, e sim que o tamanho do efeito merece honestidade.
O que ajuda até a consulta
Algumas medidas são razoáveis e de baixo risco. Reduzir por um tempo o gesto que dispara a dor, em especial o trabalho com o braço acima da cabeça, sem parar de se mover.
Sobre exercício, o tratamento não operatório descrito no Manual MSD para tendinite, bursite e rupturas parciais inclui repouso e fortalecimento do manguito rotador. O desenho do programa não cabe em um texto: é uma sugestão a ser avaliada e ajustada por um fisioterapeuta ou educador físico, conforme o que o seu caso tolera.
Este artigo não indica remédio: a escolha depende do que está causando a dor, do que você já usa e do resto da sua saúde.
Dor no ombro que desce pelo braço há semanas raramente se resolve com mais um exame. O que costuma mudar o rumo é separar, no exame, o que vem do ombro, o que vem do pescoço e o que não vem de nenhum dos dois. Esse é o trabalho da consulta.
Agendar minha avaliaçãoLeia também a página sobre dor no ombro e, se a sua queixa começa no pescoço, a página sobre dor na coluna. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Qualquer indicação depende de avaliação individual.
Fontes consultadas: Manual MSD, versão para profissionais de saúde, Avaliação do ombro e Lesão do manguito rotador/bursite subacromial; MSD Manual Professional Edition, Chest Pain; Iyer S, Kim HJ. Cervical radiculopathy. Curr Rev Musculoskelet Med. 2016;9(3):272-280; Teunis T, Lubberts B, Reilly BT, Ring D. A systematic review and pooled analysis of the prevalence of rotator cuff disease with increasing age. J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(12):1913-1921; Nakashima H, Yukawa Y, Suda K, et al. Abnormal findings on magnetic resonance images of the cervical spines in 1211 asymptomatic subjects. Spine. 2015;40(6):392-398; Page MJ, Green S, McBain B, et al. Manual therapy and exercise for rotator cuff disease. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(6):CD012224.